Ao retornar as entranhas das masmorras em suas crônicas, após o merecido êxito de sua primeira obra publicada, Além da Grades, Samuel volta a nos provocar, nos tirar da zona de conforto, tal qual o percevejo que suga o sangue do detento na cela imunda, desvendando segredos e sentimentos profundos, fundamentalmente, humanos. Mesmo que não se saiba se se está diante de um sonho ou de um delírio, fato é que o cheiro do xadrez impregna, indicando o quão fétido é o homem, seja aquele considerado criminoso, seja aquele que impõe a seus semelhantes a pena corporal. A crueza da escrita de Samuel faz com que o frio congelante do leito de concreto seja sentido pelo leitor, assim como o discurso preparado para o exame criminológico aponte para a falácia tratada no art. 6º da Lei de Execuções Penais, a qual prevê que as autoridades penitenciárias elaborarão programa individualizado de cumprimento de pena para cada habitante da cadeia. O simples fato de Samuel falar através da escrita sobre sua experiência enquanto penitente tem grande importância, já que as pessoas privadas de liberdade e os egressos são invisíveis ao debate público (a não ser que seja para lhes maldizer e impor toda a dor possível). Acontece que Samuel exerce a fala tendo muito a dizer, o que nos traz prazer ao ler obra tão visceral, tão dura, tão humana.
Além das Grades II
Samuel Lourenço Filho



