A ZOOTERAPIA E O GATO PRISIONEIRO: A LIÇÃO OCULTADA NO CASO MONIQUE MEDEIROS.
- 5 de mai.
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No último dia 22 de abril, data amplamente divulgada como o “Dia do Descobrimento do Brasil”, descobrimos uma informação curiosamente interessante: uma presidiária envolvida em um crime de grande repercussão, por meio de sua defesa, pretendia solicitar à Justiça brasileira autorização para ter a companhia de seu animal de estimação dentro da prisão.
A imprensa, de maneira tendenciosa e com manchetes sensacionalistas, achou por bem divulgar o suposto pedido processual da seguinte forma: “Monique Medeiros pedirá que gato fique com ela na prisão”. A notícia, que deveria carregar o compromisso de informar o público, também buscava likes, curtidas, visualizações e cliques, como forma de afirmar protagonismo jornalístico e, consequentemente, faturar com a matéria.
Rapidamente, as redes sociais foram inflamadas, centenas e milhares de perfis passaram a divulgar a notícia da maneira mais apelativa possível, instigando comentários absurdos. Entre eles, destacavam-se frases como: “Quando estava na rua, matou o filho; agora quer cuidar do gato na cadeia” e “O gato não fez nada para merecer ficar preso com uma assassina”.
O que pouca gente fez questão de apurar foi que o felino em questão já havia estado com ela anteriormente na prisão. No dia em que Monique Medeiros recebeu o alvará de soltura, imagens de sua saída mostram-na segurando uma caixa de transporte de animais, que continha o gato, chamado Hércules. Não me cabe aqui discorrer longamente sobre Hércules, pois sequer sei se o nome tem relação com o personagem da mitologia grega. O ponto relevante é destacar a existência de um gato dentro da prisão antes mesmo de toda a celeuma criada em torno de uma possível petição que, segundo a defesa, sequer chegou a ser formalizada. Ou seja, criou-se um enorme alarde sem que houvesse pedido algum.
Mais do que prolongar essa discussão, interessa-me levantar uma questão que não foi debatida: a importância da zooterapia em espaços de privação de liberdade.
A relação entre um animal e uma pessoa nessas condições pode ser extremamente benéfica para o animal abandonado, para o indivíduo privado de liberdade e para a sociedade como um todo.
A zooterapia tem se mostrado uma ferramenta eficaz em ambientes como prisões, contribuindo para a saúde mental, a redução da agressividade e o desenvolvimento da empatia entre os internos. A interação com animais pode diminuir níveis de estresse e ansiedade, além de estimular responsabilidade, disciplina e vínculos afetivos, que são aspectos fundamentais em contextos marcados pelo isolamento e pela tensão constante.
No Brasil, iniciativas inspiradas nesse modelo vêm surgindo em algumas unidades prisionais, ainda que em menor escala e com pouca institucionalização. Podemos citar, por exemplo, projetos estaduais como o ReabilitaCão, em Santa Catarina, e o ReinserCão, no Pará. Fora do país, há experiências mais consolidadas, como nos presídios da Califórnia, nos Estados Unidos, onde o programa Paws for Life envolve detentos no treinamento de cães resgatados, contribuindo tanto para a ressocialização quanto para a adoção dos animais. Essas experiências indicam que a zooterapia pode ser uma estratégia complementar relevante para políticas de reintegração social aliadas ao bem-estar animal.
Infelizmente, focamos nas acusações contra Monique Medeiros e perdemos a oportunidade de discutir o papel transformador que os animais podem desempenhar no sistema prisional. O imaginário coletivo ainda associa a presença de animais nesses espaços à atuação policial, como cães farejadores na busca por drogas. No entanto, se ampliarmos essa perspectiva, veremos que os animais podem exercer um papel muito mais profundo: o de agentes de reabilitação, capazes de estimular afeto, responsabilidade e empatia em pessoas submetidas ao sistema prisional.
Imaginar a implementação de programas voltados à capacitação de pessoas privadas de liberdade em atividades como resgate, cuidado, reabilitação e adestramento de animais é vislumbrar oportunidades reais de trabalho, formação e até iniciação em áreas como a medicina veterinária. Trata-se de um horizonte possível diante do alto índice de abandono de animais, do tempo ocioso nas prisões e da existência de espaços que podem ser melhor aproveitados nos complexos penais.
Que a zooterapia seja considerada uma possibilidade com cães, gatos, cavalos, aves e outros animais vítimas de abandono ou maus-tratos. E que essa prática se mostra útil a todos nós. Com vontade institucional e engajamento social, é possível transformar essa ideia em realidade.
Texto: Samuel Lourenço Filho/ Marroca - Foto: Bruno Cruz /Ag.Pará





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