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EX-PRESIDIÁRIO É MORTO E TODA COMUNIDADE FICA COMOVIDA

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Na última semana, quem acompanha a novela Três Graças, transmitida pela Rede Globo, assistiu ao desfecho trágico envolvendo Jorginho Ninja, personagem interpretado por Juliano Cazarré. Nos últimos episódios, o personagem morre após uma incansável busca pelo neto recém-nascido, roubado por uma quadrilha de traficantes de bebês.


Na trama, Jorginho Ninja é um ex-traficante e dono de uma favela paulista, apelidada Comunidade da Chacrinha. Sua volta à novela ocorre após um longo cumprimento de pena, seguido de prisão humanitária decorrente de um estágio terminal de doença no cérebro. O folhetim trouxe à cena um personagem egresso do sistema prisional que, depois de todas as atrocidades enquanto chefe do morro, foi preso e se converteu ao Evangelho na cadeia. Após a libertação, passou a testemunhar o poder de Deus, viveu a fé e buscou redimir-se dos erros e crimes pretéritos. Jorginho Ninja transitava entre a convivência na igreja e a rotina de levar a filha à escola. Sua participação terminou com a morte: envenenado por uma injeção letal, despediu-se do mundo físico entre luzes e esplendor celestial, numa cena de possível redenção, bastante bonita.


As cenas do velório e do enterro merecem destaque: um traficante e ex-presidiário morre de doença e toda a comunidade se comove com a perda de alguém transformado. O pastor chega a afirmar que o antigo Jorginho havia morrido e que o novo Jorginho estava ao encontro das mansões celestiais. Como se não bastasse a comoção dos membros da igreja, pessoas que comungavam da mesma fé, os policiais da região também prestaram testemunho em favor do homem. O delegado, surpreso, disse não acreditar que Jorginho havia se tornado tão diferente. Corroborando a autoridade distrital, um policial destacou a importância da capelania prisional, ressaltando o valor do trabalho de evangelização nas cadeias e do acompanhamento extramuros.


O atual mandatário da Comunidade da Chacrinha, conhecido como Bagdá, externou inúmeros depoimentos e intenção de mudança após ver o que aconteceu com Jorginho Ninja. No momento derradeiro, na hora do adeus, o criminoso disse que se dispunha a abandonar a vida do crime e passar pela mesma transformação.


Se a vida imita a arte, o cotidiano traz muitos exemplos de Jorginhos que deram certo e tantos outros que, depois da prisão, se tornaram piores do que ao entrar. Ter sensibilidade para reconhecer que uma pessoa, depois dos crimes e da punição, pode trilhar uma nova vida e ter boas intenções não é apenas um desafio artístico, é um desafio humano. Vivemos num tempo em que a confiança é escassa. É triste imaginar que alguns anulam todo o contexto alegando que a Rede Globo romantiza o crime. As cenas protagonizadas por Juliano Cazarré e pelo elenco evidenciaram o ser humano em seus vícios e virtudes, com todas as idiossincrasias de uma pessoa profundamente humana.


Jorginho Ninja representou milhares de pessoas que abandonaram o crime e se aproximaram da fé. A arte trouxe a interpretação de algo muito criticado: a conversão durante o cumprimento da pena. Jorginho Ninja simboliza a perseverança de milhares de presos que frequentam a igrejinha da cadeia e que todos os dias pensam em desistir.


Tudo isso refere-se a alguns capítulos de Três Graças, mas é a realidade de muitas famílias que depositam esperança no sagrado para transformar a profanação presente no crime, na sociedade e nas prisões. Jorginho pode ser tudo o que não queremos ser, mas pode também ser tudo para muitos que estão presos e acreditam na transformação. Parabéns ao folhetim pela rara representação sensível e humana da prisão e da reintegração social, sem caricatura, surrealismo ou comédia.


Foto: Reprodução/TV Globo

 
 
 

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